Ser negro em Salto no Século XIX
Ser negro na região do Médio Rio Tietê, especialmente em cidades como Salto, no século XIX, era viver entre mundos muito diferentes. Enquanto fazendas de cana, café e algodão se espalhavam com base no trabalho escravo ao redor, surgiam também vilas e cidades onde a vida urbana abria novos caminhos. Salto, que nasceu como um bairro rural de Itu, cresceu com a força do capital açucareiro e depois com as lavouras e fábricas. A chegada da estrada de ferro em 1873 e o início das indústrias atraiu muitos negros recém-libertos, que buscavam ali uma vida com mais autonomia.
Mesmo ainda existindo escravos, a cidade era marcada por uma presença significativa de negros livres, empregados nas fábricas e organizados em suas próprias redes sociais e culturais. Em 1884, apenas 4,5% da população de Salto era escravizada — um contraste enorme com Itu em 1782, onde esse número era de 32%.
As ruas da cidade viam de tudo: fugas de escravizados tentando alcançar quilombos, batuques em sítios como o do Burú e até negros negociando produtos nas feiras — alguns até acusados de comércio “ilícito” pela imprensa da época. A cidade, com sua topografia cheia de matas, grutas e cachoeiras, criava espaços onde resistências e novas formas de vida negra urbana podiam florescer, mesmo dentro de uma sociedade ainda marcada pela escravidão.


Dona Galdina é uma inspiração para a Casa da Memória Negra de Salto. Não sabemos sua data de nascimento, mas seu filho, o maestro Zequinha Marques de Oliveira, nasceu em 1893, cinco anos após a abolição da escravatura. Dona Galdina é uma mulher negra que viveu no período da escravidão e pôde também usufruir da liberdade de ser e viver em Salto no século XX.
Os estudos sobre a escravidão negra em São Paulo comprovam que a partir do século XIX , intensifica-se a presença da população negra no Estado , com o desenvolvimento da economia açucareira que se mantinha tendo como base a monocultura, o latifúndio e a escravidão negra. Nas cidades, essa presença negra ocorre de maneira diversificada, dependendo da economia local e da utilização da força de trabalho dos escravizados.
A cidade de Salto, inicialmente um bairro rural pertencente a Itu, teve em seu surgimento o benefício do capital acumulado com a economia açucareira e mais tarde, o das lavouras de café e de algodão, o que favoreceu os investimentos no sistema fabril.
A inauguração da estrada de ferro em 1873, assim como a presença das indústrias tornaram-se atrativos para a vinda de novos moradores na cidade, dentre eles negros, recém libertos em busca do trabalho fabril. Ao empregar trabalhadores livres nacionais nas emergentes fábricas saltenses, o local torna-se referência em uma região cercada de propriedades escravistas. Nesse contexto, com um número reduzido de escravos, conviviam na cidade negros escravizados e negros livres, recém-contratados na indústria.
Em uma estatística publicada pelo jornal “Imprensa Ytuana” em abril de 1884, a população de Salto era formada por 781 habitantes, sendo que desses, 747 eram livres e 34 eram escravos, totalizando uma porcentagem de 4,5% de escravos em relação a população total. No ano de 1782, a estatística informada para o número da população livre e escrava na cidade de Itu revela que de uma população total de 10.821, 3.290 eram escravos, ou seja 32% da população.
Assim, pode se dizer que na cidade de Salto desenvolveu-se uma escravidão urbana, aliada a presença expressiva de trabalhadores negros livres. Ao mesmo tempo, a existência de uma economia agrícola e escravista nas cidades vizinhas contribuiu para que se formasse um ambiente específico local, podendo ser percebido no cotidiano da cidade.
Não eram raras as noticias sobre fugas de escravos de fazendas das proximidades que passavam pelas ruas da cidade e seguiam em direção aos quilombos, como ocorreu em 1887. (Imprensa Ytuana, 1887.p.3). Também eram percebidas as negociações comerciais realizadas pelos escravos das fazendas da região, que de acordo com o jornal da época “vinham ao povoado fazer seus negócios e algumas vezes ilícitos” (Imprensa Ytuana, 1887.p.2).
As reuniões de negros batuqueiros nos sítios locais, como na região do Burú, mantidas pela memória dos descendentes dessa população, eram frequentes e fortaleciam os laços entre os grupos negros da região.
Assim, pode se pensar no ambiente urbano como um fator diferenciador no processo de escravidão e pós- abolição. No caso de Salto, a topologia do lugar, a partir da existência da cachoeira, das matas cerradas, das grutas e das organizações das fábricas, favoreceu a construção de outras formas de organização sociais, mesmo que inseridas no processo de escravidão do país.
Referências:
IANNI, Octávio. Uma cidade Antiga. Universidade de São Paulo, Museu Paulista, 1988
QUEIRÓS, S. R. R. Escravidão negra em São Paulo: um estudo das tensões provocadas pelo escravismo no século XIX. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.
SOUSA, Claudete de. Formas de resistência dos escravos na região de Itu- Século XIX. Dissertação de Mestrado. UNESP/1998.
BASSANEZI. Maria Sílvia C. Beozzo (org.).Dados demográficos: São Paulo do passado. Núcleo de estudos de população – NEPO Universidade Estadual de campinas – UNICAMP .1998
ZEQUINI, Anicleide. O quintal da fábrica. Editora Fapesp/Annablume.2004
Sites:
Dados demográficos São Paulo do passado.
https://www.rebep.org.br/revista/article/view/399/0
Sistema integrado de Biblioteca. SIB. Imprensa Ytuana.
http://www.obrasraras.usp.br/xmlui/handle/123456789/4270

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