Presença Negra na Brasital

A partir de 1919, a instalação da Brasital transformou profundamente a vida da comunidade, tornando-se a maior empregadora da região e impulsionando a formação de vilas operárias. Além de moldar a economia local, a fábrica influenciou hábitos, relações sociais e um modo de vida que se enraizou na cultura da cidade.


O trabalho fabril contava fortemente com a mão de obra feminina, e muitas das primeiras gerações de mulheres negras vieram do campo, migrando de cidades vizinhas para se estabelecerem em Salto. Deixaram para trás as casas de pau a pique e passaram a habitar as vilas operárias, onde construíram suas vidas e famílias. Seus filhos e filhas cresceram nesse ambiente e, por gerações, repetiram o ciclo dos turnos fabris, perpetuando essa presença na indústria.
As memórias dessas mulheres revelam tanto as duras realidades do cotidiano fabril quanto os momentos de alegria e companheirismo vividos na vila operária. Entre as máquinas e os corredores da fábrica, emergem histórias de resistência, sonhos e afetos que marcaram a identidade negra na cidade.

Clube José do Patrocínio

A segregação racial presente no cotidiano de Salto, até a segunda metade do século XX, impedia que negros, mestiços e brancos, frequentassem os mesmos espaços nos momentos de lazer. Isso fez com que se desenvolvessem estratégias de diversão, como a criação da Sociedade Instrutiva e Recreativa José do Patrocínio.

O TRABALHO COMO EXPERIÊNCIA CULTURAL

O Trabalho do ponto de vista do ser humano é fruto de sua aventura sobre a terra, em busca de uma vida melhor que possibilite que homens e mulheres possam melhorar suas vidas e de suas famílias. É uma busca individual e coletiva, que possibilita uma experiência cultural.
As comunidades africanas eram em seu inicio nômades e se distribuíam no continente africano produzindo espaços de vida sob um cotidiano que experimentava uma divisão do trabalho vivenciado na partilha e na comunhão. O trabalho para este povo era a uma forma de reprodução com autonomia, pois estava em suas mãos os meios de produzir, que compunha toda a organização social da época.
Da forma de trabalhar destes povos negros emergiram uma forma de agregar seus pares por meio de comemorações, festas e celebrações tais como ocorriam no final das colheitas, das grandes caçadas, das guerras, e por conseguinte, suas religiões, suas experiências espirituais e todas suas místicas e mitos para explicarem a origem do mundo e sua manutenção.
Na sociedade contemporânea com a nova divisão internacional do trabalho e com a migração do negro para outros continentes ora de forma compulsória, ora de forma voluntária, este passou a fazer parte de múltiplas experiências culturais que o consolidou como parte integrante da sociedade ocidental.
Isso se percebe na segunda metade do século XIX , quando a cidade de Salto se caracteriza como uma região tipicamente fabril, atraindo grupos familiares, especificamente negros recém-saídos da escravização, muitos da zona rural, que vinham em busca de melhores condições de vida. Aliada a força da natureza com o “salto das águas” ,como descrito pelos diversos viajantes que aqui passaram, como os franceses Hércules Florence e Auguste de Saint-Hilaire escritor luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar, o florescimento da indústria fez com que a Cidade de Salto se tornasse um polo atrativo para que os moradores do campo viessem para o local.
A vinda de inúmeros grupos familiares favoreceu a organização de experiências culturais específicas na região, experiências essas contadas e recontadas pelos mais velhos que guardam em suas memórias as angústias do cotidiano fabril.


Referências:


BÂ, Amadou Hampaté. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph. (Coord.). História geral da África: volume 1: metodologia e pré-história da África. São Paulo: Ática, 1982.


FLORENCE, Hercules. Viagem fluvial do Tietê ao amazonas de 1825-1829.Sp.Ed. Melhoramentos,1948.


KI-ZERBO, Joseph. Introdução geral. In: KI-ZERBO, Joseph (Coord.). História geral da África. São Paulo: Ática, 1982.


ZALUAR, Emilio. Peregrinação pela província de São Paulo. SP.Ed.Cultura,1943.


ZEQUINI, Anicleide. O quintal da fábrica. Editora Fapesp/Annablume, 2004.

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